
Brasília é uma ilha, uma cidade que fabrica sua própria lei, já cantava Herbert Viana em 1995. E a ilha tem terrenos propícios para a exploração jornalística, como mostrou Policarpo Júnior, repórter da revista Veja, aos alunos do Curso Abril na manhã de 29/1.
Durante a conversa, ele passou dicas de investigação, falou sobre os bastidores do caso Renan Calheiros e do Mensalão e analisou a cobertura da corrupção no Brasil. Confira a seguir os principais pontos do encontro:
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"O jornalismo investigativo requer garra, persistência, paciência. Não tem glamour. Tem que apurar". Policarpo lembrou que, nesse processo, são essenciais as fontes que o jornalista cultiva. Segundo ele, é bom tê-las em locais variados. O cargo que ocupam não necessariamente tem que ser o mais alto. "Às vezes um assessor de senador sabe de mais coisas, já que tudo passa pela mão dele", observou.
O repórter recomendou que se fortaleça o contato pessoal com os informantes. "Combinar um almoço pode ser uma boa. Você tira o camarada de um ambiente formal, deixa-o mais à vontade". No entanto, uma aproximação maior deve ser evitada, para manter a isenção que a profissão requer. "Quando você tem uma 'fonte amiga' ou um amigo 'fonte', pode ser um inocente útil também", comentou.
O uso de disfarces em investigações também foi abordado na conversa. Policarpo se mostrou favorável a tal artifício e diferenciou mentir sobre ser jornalista de omitir a identidade profissional. Para exemplificar, contou como realizou a cobertura da doença do ex-presidente Tancredo Neves.
Ele comprou um jaleco e foi ao hospital em que o político estava internado. Sondou o ambiente em busca de novidades sobre o assunto. "Ninguém me perguntou se eu era jornalista. Eu só omiti essa informação. Se tivessem perguntado, teria dito que era".
A câmera escondida foi outro tema do encontro. O repórter disse que em geral não concorda com seu uso (principalmente na televisão) e questionou a confiabilidade das informações, dada a forma sorrateira como as abordagens ocorrem. "Quando você chega em uma empresa investigada e faz perguntas à secretária de lá, por exemplo... Ela pode contar coisas de que não tem certeza, que supõe que tenham ocorrido... Será que ela pode ser responsabilizada pelo que diz nessas circunstâncias?".
No entanto, Policarpo acredita que há exceções para o uso da câmera oculta. Como exemplo, citou a matéria sobre a propina dos Correios, que desencadeou as denúncias do Mensalão. "Tratava-se de um funcionário público [Maurício Marinho, ex-chefe de Departamento de Contratação da estatal] recebendo propina em um local público. Não havia outra forma de se mostrar o caso", ponderou.
Mensalão
Durante a cobertura do escândalo envolvendo a bancada governista no Congresso em 2005, Policarpo passou por uma situação delicada. O ex-presidente do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil), Lídio Duarte, concedeu uma entrevista ao repórter sob a condição de off. Pelo fato de estar envolvido na história confidenciada, ele aceitou aparecer na matéria como personagem, mas não como fonte (o que ocorreu).
No dia seguinte à publicação da reportagem, Lídio Duarte afirmou à imprensa que não havia participado do esquema de corrupção retratado. "Ainda bem que eu tinha todas as ligações gravadas", contou Policarpo, que teve que desmentir o ex-presidente da estatal.
"Quebrar o off nesse caso não teve problema, pois foi a fonte que o rompeu primeiro", comentou o repórter. Sobre gravar as conversas sem o entrevistado saber, o jornalista mais uma vez se justificou com a omissão. "Ele não me perguntou se eu estava gravando. Se tivesse perguntado, teria que dizer que sim".
Sobre a cobertura de casos de corrupção no governo do PT, o repórter disse que há um atrativo para as investigações: o fato de o partido sempre ter defendido a conduta ética na política. Além disso, as "trapalhadas" também chamam a atenção: "Aparecer com um Land Rover já é demais", comentou Policarpo sobre o carro que Sílvio Pereira, ex-secretário geral do partido, ganhou de uma empreiteira em 2005.
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