
"O jornalista é um ser humano mais ou menos parecido com os outros. Ele é movido por uma vontade grande de mudar o mundo e atingir a maior quantidade de pessoas possível". Esse é o perfil que Carlos Maranhão, diretor de redação de Veja São Paulo, apresentou aos alunos do Curso Abril na noite do dia 11/2.
Ele lembrou que o profissional deve ter sensibilidade para apurar os fatos e capacidade de escrever bem. Comentou que "grandes jornalistas são repórteres por formação" e apontou seis itens indispensáveis para o desenvolvimento da boa escrita jornalística:
1. Talento
Para Carlos Maranhão, é fundamental ter aptidão para a profissão. "É como desenhar, tocar um instrumento, jogar futebol... Tem que ter jeito". Ele acredita que a prática pode aprimorar o talento, mas não desenvolvê-lo.
2. Leitura
"Só lendo se consegue escrever bem", mencionou Maranhão. Jornais, revistas da mesma área em que se trabalha, livros de ficção e não ficção de bons autores de língua portuguesa são opções válidas nessa tarefa.
Ele recomendou obras de Eça de Queirós, Machado de Assis e Graciliano Ramos. "Ensinam a estrutura do texto e ajudam a desenvolver a criatividade".
O diretor de redação acrescentou que essa tem que ser uma tarefa básica para o jornalista. "Tem que arranjar tempo. Do mesmo jeito que se tem tempo para dormir, tomar banho, namorar...".
3. Pesquisa
"Não se pode tratar de um assunto sem ter familiaridade com ele", pontuou Maranhão. Além disso, uma pesquisa prévia sobre a pauta evita que se publique algo já tenha saído na imprensa, comentou o jornalista.
4. Apuração
Dados, estudos, depoimentos... quanto mais informações houver, melhor ficará a matéria, de acordo com o diretor de redação.
Ele observou que a intenção não é colocar tudo no texto (muitas vezes não há espaço para tanto), mas selecionar os aspectos mais interessantes do assunto. "Você vê onde está a notícia na apuração, não na escrita".
5. Disposição para trabalhar
"A vida inteira escrever será um trabalho penoso. Não se escreve um texto simples fácilmente".
Para expressar a aridez dessa tarefa, Carlos Maranhão recorreu a pensamentos de alguns autores:
"Quem escreve fácil é o orador, que recorre a chavões" (Fernando Sabino, cronista brasileiro).
"Escrever é um trabalho duro. Poucas palavras certas saem na primeira, segunda, terceira tentativas" (William Zinsser, escritor norte-americano).
"Tem que escrever, reescrever, reescrever de novo... até o relógio apitar" (Graciliano Ramos, romancista brasileiro, sobre o tempo de fechamento que orienta o jornalista).
6. Clareza
Segundo Carlos Maranhão, texto bom é texto claro - "não importa se é reportagem, e-mail, trabalho escolar, placa de trânsito...".
As frases curtas, a ordem direta, o uso de palavras simples e a checagem de informações ajudam a alcançar esse atributo.
Citando o jornalista norte-americano E. B. White (autor de The Elements of Style), o diretor de redação de Veja São Paulo disse que a confusão de idéias não é apenas um distúrbio da prosa - é um distúrbio da vida.
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