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"No Jornalismo Cultural, a opinião vem para primeiro plano"

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"No Jornalismo Cultural, a opinião vem para primeiro plano"

Editor de Veja expõe características da cobertura da revista nessa área

Marina Piedade
"O tom da revista é irreverente - tanto do ponto de vista do humor quanto de não fazer reverências a 'vacas sagradas'", comentou Graieb

30 de Janeiro de 2008, 16:59

A fiel platéia do Curso Abril Jornalismo e o editor de Cultura de Veja, Carlos Graieb, deixaram de lado o feriado em São Paulo e se reuniram na noite do dia 24/1, véspera do aniversário da cidade, para discutir questões relacionadas ao jornalismo cultural de Veja. Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Pontos fundamentais

Carlos Graieb listou as características que considera essenciais na cobertura de Cultura. A primeira é o fato de que ela se vale dos mesmos preceitos jornalísticos de outras áreas: boa apuração, checagem de informações e respeito às fontes.

"A tentativa de se fazer jornalismo sem opinião é um atalho para o fracasso", considerou o editor. Para exemplificar, citou matérias de Veja, entre elas uma intitulada Como fugir do marasmo, de setembro de 2007, sobre a regência da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp.

A matéria argumenta que há uma certa estagnação da orquestra sob a batuta de John Neschling. "Buscamos motivos que pudessem explicar a aposentadoria do maestro", explicou Graieb. Os alunos perguntaram se o caminho que seguiu a reportagem - da opinião para a apuração - foi seguro. O editor disse que, caso a percepção de que a orquestra passa por um período de estagnação não fosse comprovada pelos fatos na apuração, a matéria não seria publicada.

Graieb mencionou a busca por abordagens inusitadas. Um exemplo disso seria a matéria sobre o Big Brother Brasil publicada no ano passado, quando a sétima edição do programa estava no ar. A trama do reality show foi retratada sob uma ótica darwinista e contou com explicações de geneticistas e psicólogos sobre o comportamento de animais em situações de competição e cárcere. Segundo o editor, a reportagem evitou fórmulas convencionais de abordagem de programas popularescos.

Tarefas da cobertura de Cultura

Graieb enumerou ainda situações e atribuições comuns dessa área do jornalismo. Uma delas é diálogo com o mercado. Ele destacou que "não se deve ter uma atitude de rejeição à indústria cultural", mas que é preciso evitar seus perigos, como se deixar levar pelas agendas dos artistas e aceitar jabá.

De acordo com ele, um exemplo desse diálogo está na matéria Uma farsa de A a Z, publicada em março de 2005. O tema era o livro Medicina alternativa de A a Z, na época em alta no mercado. A reportagem apurou fraudes e charlatanismo na edição da obra.

Ela foi retirada da lista de Veja dos livros mais vendidos. Graieb disse que a revista não poderia compactuar com esse tipo de publicação. "As pessoas usam a lista como parâmetro para comprar livros", comentou.

Ao mesmo tempo em que considera a revista um indicador para seus leitores, Graieb não acredita que ela forme opiniões. "O público é crítico, tem boa formação. Sabe o tom como foram escritas as matérias, identifica ironias".

Exemplos disso podem ser encontrados na matéria Como ganhar verniz, de novembro de 1998 - "uma das mais cínicas já publicadas", como contou o jornalista. A pauta era listar dez livros e poemas que, se fossem superficialmente lidos, garantiriam verniz intelectual. Entre eles, Édipo Rei, Crime e Castigo, Vou me embora pra Pasárgada e E agora, José?

Tal matéria também exemplifica outra situação comum nessa área, segundo o editor: a fronteira que a Cultura faz com o Comportamento. "Às vezes a Cultura é utilizada pelas pessoas como uma ferramenta. Tem a ver com a inserção em alguns grupos, com relacionamentos".

A síndrome da carne-de-vaca, reportagem publicada em novembro de 2004, aborda a questão do pertencimento a algum grupo, enfocando gostos musicais. Ela parte da idéia de que bandas do cenário roqueiro (antes desconhecidas), quando ganham projeção maior na mídia, desagradam seus "fãs originais". Esboça seus perfis e reações mais típicas - com as quais o leitor pode ou não se identificar.

Outras tarefas comuns no Jornalismo Cultural, de acordo com Graieb, são "abrir o leque" de opções, no sentido de retratar obras diversas, e "tratar desigualmente os desiguais". Esta última refere-se ao tom que se usa para cobrir áreas diferentes. "Não dá para falar de TV e Shakespeare do mesmo jeito", disse o editor.

Ele finalizou destacando a importância da ligação entre arte e texto nessa área. "Às vezes um infográfico consegue expressar melhor uma idéia". Para exemplificar, o jornalista mostrou a arte da matéria A Peleja dos Gigantes, de agosto de 2005, que indicou divisões e embates no campo literário. A metáfora usada foi o futebol: grandes autores foram colocados em "times opostos", de acordo com seus trabalhos, e símbolos como o cartão vermelho, gol e bola na trave indicavam erros e acertos na "competição" apresentada pela revista.


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