
Se a capa é o cartão de visita da revista, pensar em seus detalhes e modos de elaboração ajuda a atrair o leitor e transmitir a identidade do veículo. As etapas desse processo, que requer conhecimentos em várias áreas, foram apresentadas aos alunos do Curso Abril de Jornalismo na palestra de quarta-feira, dia 23/1.
Na primeira parte, Carlos Grassetti, diretor de Arte da Diretoria Secretaria Editorial da Abril, traçou uma linha do tempo sobre o assunto, falou de logotipos, fotos de celebridades e design e deu dicas básicas para montar uma boa capa. Os principais pontos do bate-papo com os alunos estão listados logo abaixo.
Já na segunda parte do encontro, Carlos Neri, diretor de Arte da Veja, indicou particularidades da revista e relembrou edições de grande de sucesso. Os comentários do designer podem ser conferidos clicando aqui.
Linha do tempo
Grassetti mostrou um panorama geral da produção de capas de revistas brasileiras ao longo dos anos. No fim do século XIX, a revista Dom Quixote trazia ilustrações da realidade política do país, muitas vezes com bom humor. Algumas décadas depois, o uso de desenhos pintados se tornou freqüente.
A revista O Cruzeiro impulsionou o fotojornalismo no Brasil a partir da década de 50. É célebre a capa na ocasião em que o país entrou oficialmente para a Segunda Guerra Mundial. Com a imagem ganhando cada vez mais espaço, a revista Capricho apostou em fotonovelas (na mesma época). Suas capas eram simples: estampavam apenas o nome da obra e uma ilustração referente. A tiragem chegava a 500 mil exemplares por mês.
O Diretor de Arte da Abril lembrou a relevância de duas revistas da metade do século: a Sr., que contava com colaboradores famosos no meio acadêmico e político e tinha ilustrações de artistas plásticos famosos da época na capa; e a Manchete, que trazia imagens de fatos políticos marcantes.
Fórmula
"Um misto de familiaridade e estranheza. A capa de um revista tem que ter essa fórmula", expôs Grassetti. "É como casar com alguém, olhar para essa pessoa todo dia e mesmo assim ela te surpreender às vezes", brincou o designer.
Para exemplificar essa familiaridade, ele citou alguns veículos. A revista Vip, que sempre tem alguma celebridade em uma pose sexy. A revista Capricho, que após muitas mudanças estampa atualmente um ídolo ao centro, chamadas curtas nas laterais e o logotipo integrado ao conjunto da página. E a revista Recreio, que costuma publicar na capa personagens de filmes e histórias em quadrinhos.
Carlos Grassetti contou um fato curioso sobre essa identificação que o leitor faz: a revista Cláudia, que tem como marca uma foto que delimita o rosto e os ombros de alguma mulher (famosa ou não), optou por um tempo pôr fotos de tronco e rosto de alguma modelo na capa. "Isso fez com que a revista se confundisse com outras publicações na banca", comenta.
Logotipo
A transformação de um logotipo, de acordo com o diretor de Arte, ocorre quando a revista passa por mudanças conceituais. Como exemplo, ele mencionou a Quatro Rodas, que até a década de 50 trazia matérias sobre comportamento e temas variados do universo masculino além da paixão por automóveis. Ao adquirir, anos depois, o caráter de "prestador de serviços"/consultor nessa área, o veículo sofreu modificações em sua marca.
Outra revista que também passou por mudanças foi a Contigo! Grassetti lembra que, antigamente, havia uma estrela junto ao logotipo (na época em que a revista era uma "espiã" da leitora no mundo televisivo). Focada nas celebridades atualmente, a revista tem uma design diferente e seu logo não tem mais a estrela.
Celebridades
Não só a Contigo! se vale delas para vender revistas. O diretor de Arte da Abril conta que uma pesquisa realizada nos Estados Unidos apontou que as edições que mais venderam no ano passado foram as que estamparam estrelas em suas capas. "Na Abril, sempre houve também essa dependência do mundo artístico para a venda de revistas".
Ele diferencia como as celebridades aparecem em certas edições. Na revista Estilo, por exemplo, sempre há alguém que não necessariamente é do mundo da moda, como atrizes e cantoras. Fotografá-las "estáticas" requer certa produção, já que geralmente o "estado natural" dessas mulheres para as leitoras é o de movimentação, qualquer que seja.
Já a revista Elle sempre tem modelos na capa, que estão acostumadas a fotos de estúdio e à preparação que as envolve.
Mas só o nicho feminino abrange as celebridades? "Hoje em dia, até a Placar recorre à imagem de alguma 'estrela da bola' para pôr na capa", comenta Grassetti, que relembra diferentes fases da revista - incluindo a época em que se propôs a falar de comportamento, sem muito sucesso.
Espiral tipográfica
Uma tendência atual da produção de capas de revistas é a integração maior da foto com os recursos tipográficos da página - a chamada "espiral tipográfica", de acordo com Carlos Grassetti. Ela ocorre quando a disposição das chamadas se adequa às formas da modelo, sem a formação de "quadrados fixos" nas laterais das capas.
"É como se a modelo estivesse dentro de um espiral. Confere profundidade à capa", explicou o diretor de Arte da Abril.
Design
Os elementos listados por Grassetti, combinados a outros, contribuem para a formação de um desenho característico da publicação, de sua identidade visual. Ele mencionou como exemplo a revista Love Teen, que tem design pop, o qual inclui cores vibrantes, fotos de ídolos adolescentes, múltiplas chamadas e ilustrações do universo teen.
Outro exemplo citado pelo diretor de Arte é a revista A, que investe em imagens de luxo com traços fortes e límpidas, e não possui muitas chamadas e alternância de cores. Teria, portanto, um design clássico.
Sobre as cores, Grassetti comentou sua importância para a identificação de algumas publicações. "A Vida Simples, por exemplo, sempre tem tons claros, adequados à proposta da revista. Já a Mundo Estranho tem cores fortes, que chamam a atenção em suas chamadas".
Para finalizar: cinco conselhos de mestre
Carlos Grassetti encerrou o bate-papo com as seguintes dicas:
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