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Por dentro do jornalismo de Veja

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Por dentro do jornalismo de Veja

Henrique Gualtieri
Eurípedes Alcântara comenta as características da revista

24 de Janeiro de 2008, 17:05

O Diretor de Redação de Veja, Eurípedes Alcântara, em palestra proferida aos alunos do CAJ, na terça-feira, 22/1, falou sobre particularidades do veículo, comentou reportagens emblemáticas e deu algumas dicas de como escrever boas matérias. Confira, a seguir, os principais pontos da conversa com os alunos.

DNA: criar caso

Eurípedes disse que a revista pega no pé de todos os governos. Como exemplos, citou matérias investigativas relativas ao governo Lula e ao governo FHC.

Ele discorda dos comentários de que Veja tende a perseguir especialmente o governo do PT. "Nós rompemos uma 'lua-de-mel' que havia entre a imprensa e o presidente, logo após a eleição. Houve uma grande comoção com a vitória de Lula, mas nós tínhamos que investigar esse governo também".

As marcas de Veja

O Diretor de Redação expôs alguns pontos essenciais para a produção da revista. Um deles é o controle que o repórter precisa ter sobre a matéria. "Não é a pauta ou a fonte que têm de dominar o jornalista", disse.

Outro ponto é a diluição de conteúdo opinativo em meio às reportagens, a qual Eurípedes chama de "escrever pensando". O jornalista ponderou sobre as diversas interpretações dos críticos sobre determinadas reportagens da revista. "Você só pode ser cobrado por aquilo que escreve. Não pelo que interpretam". Como exemplo, lembrou da matéria que revelou uma investigação da Abin sobre possível aporte de dinheiro das Farc em campanhas petistas. "A Veja disse que a Abin estava investigando. Não disse que Lula recebia de guerrilheiros. Isso é uma interpretação".

Posicionamento

Eurípedes Alcântara comentou que Veja não tem problema em assumir posições claras diante de questões importantes. "Veja não se furta ao debate. Isso é claro para quem compra a revista", disse.

Ele não crê que o veículo forme opiniões. Para ele, na relação com o leitor não há a imposição de uma "verdade", mas um diálogo contínuo. O diretor lembra que o público de Veja tem boa formação e nível econômico. "É uma pequena Bélgica", disse.

Perguntado sobre porque a revista não apoia formalmente uma candidatura política - como acontece, com freqüência, nos EUA - Eurípedes afirma que não há no Brasil partidos com os quais o veículo se identifique. "A adesão pressupõe algumas coisas básicas: não corrupção, coerência, transparência. É difícil encontrar isso hoje em dia".

Capas históricas

Ao longo dos anos, o veículo causou polêmica com algumas capas. Entre elas está a da morte da cantora Elis Regina, que trazia como título "A tragédia da cocaína", desagradando o público imerso em uma comoção coletiva. Outra capa foi a de Cazuza, que enfocava a AIDS e seu caráter letal (igualmente provocando polêmica).

Nessa lista de capas marcantes, Eurípedes inclui a de Che Chevara, publicada no passado com a intenção de desmistificar o herói. O jornalista conta que a idéia para a matéria partiu de suas convicções, formadas após ouvir relatos contra o guerrilheiro durante viagens à Cuba. Ele disse que a reportagem é "caricaturalmente de direita", mas tecnicamente bem apurada.

Sobre outras capas recentes, Eurípedes aponta alguns exageros. "A capa do [ex-banqueiro Salvatore] Cacciola, por exemplo, introduzia uma matéria com boa apuração do fenômeno [contratos com o Banco Central], mas não da responsabilidade do governo".

Outra denúncia que para o diretor poderia não ter ido na capa é a que diz respeito ao ex-secretário geral da presidência de FHC, Eduardo Jorge. "Faltou uma apuração maior".

Conselhos para jovens jornalistas

Eurípedes lembrou que o jornalista precisa conservar sua autoridade com relação ao fornecimento de conteúdo em tempos de difusão de informação pela internet. Fez uma comparação com o caso de pacientes que vão ao médico já sabendo todos os seus sintomas e doenças, por terem pesquisado antes na rede. "Apesar disso, quem tem autoridade é o médico. Por isso eles vão ouvi-lo".

O diretor também deu recomendações relacionadas à escrita de uma boa reportagem. "Ela tem que acrescentar informações, surpreender, ter clareza da exposição, não ter contradições". Ele mencionou que o bom humor também é um ingrediente indispensável. "Pena não ter muito disso hoje em dia".


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