A importância de lembrar e exercitar sempre os fundamentos do jornalismo. Essa foi uma das principais mensagens contidas na palestra do jornalista José Roberto Guzzo, membro do Conselho Editorial da Abril, aos alunos do Curso Abril de Jornalismo, no dia 22/1.
Veterano da editora, Guzzo abordou elementos relevantes do trabalho jornalístico : escrever com clareza, aprofundar as pautas e compreender bem o assunto retratado são algumas delas.
O jornalista expôs 10 passos para uma escrita atraente, que "leve prazer ao leitor e faça com que ele comente a matéria com outras pessoas".
1. Decida, antes de escrever, o que você vai pôr no computador
Delimitar a pauta e refletir sobre ela é essencial para o repórter.
2. O editor tem que ser capaz de explicar 100% do que está na matéria
José Roberto Guzzo lembra que o jornalista tem a obrigação de entender tudo o que está escrito.
3. Conheça bem seu assunto
"Não se trata de querer conhecer tudo - o jornalista não sabe de tudo. Trata-se de saber mais do que você sabia antes de entrar na matéria".
4. Leia e copie boas matérias
Guzzo explicou que para escrever bem é preciso ler boas reportagens e "absorver" delas modelos e dicas. "Você tem que fazer uma 'engenharia reversa' na hora de escrever seu texto. Tem que adaptar seu tema, ver como se encaixa em um modelo que admira".
5. Recorra a um bom manual de redação
O jornalista da Abril citou os manuais (que começaram na imprensa americana) como instrumentos para tirar dúvidas na hora da escrita.
6. Evite lugares-comuns
Para Guzzo, eles obscurecem o texto. "Por que escrever blindagem se você pode escrever proteção? Por que pôr transparência se você pode colocar clareza?". O jornalista recomendou a busca por sinônimos e acrescentou que o chavão demonstra preguiça do repórter.
7. Uma pauta ruim dificulta a escrita da matéria
Guzzo disse que há "assuntos-bichados", que devem ser evitados. Como exemplos, citou :
- o "assunto-chavão" - é "aquele de que todo mundo está falando" (com exceção de grandes fatos que tem que ser noticiados);
- a "matéria enganosa" ("Como emagrecer comendo de tudo?", "Como ficar milionário jogando na bolsa em 15 dias?");
- e listas em geral, como as de "quem são" - quando não têm caráter de serviço e não trazem nada novo ("Quem são os 10 cabeleireiros mais caros de São Paulo?" - "isso existe desde sempre. Sempre houve 10 cabeleireiros mais caros em SP. Qual a novidade disso?", explicou Guzzo).
8. Aproximar-se da linguagem do leitor
"Não significa escrever com uma linguagem rústica, banal, grosseira. Significa utilizar a linguagem que o leitor usa normalmente para se comunicar - fugir de termos complicados, do jornalistês", disse Guzzo.Ele recomendou que a linguagem empregada tenha frases de estrutura simples, palavras comuns, descrições com clareza e adjetivos quando eles tornarem mais preciso o relato.
9. Não escreva de modo confuso
Para o jornalista, o texto confuso muitas vezes demonstra a insegurança na hora de escrever. Ele deu uma dica que vem do filme Alice no País das Maravilhas: "Comece pelo começo. Vá direto até o fim. Aí, pare". Depois explicou: "Quando acabar de contar uma história, pare. A matéria tem que ter uma seqüência".
10. Citações sempre ajudam
"No começo, no meio, no fim da matéria. Sempre podem ser úteis para o relato", finalizou Guzzo.
Boas leituras
Todas essas dicas despertaram a curiosidade do público sobre leituras de José Roberto Guzzo que contribuem para a prática de seu trabalho. Ele citou algumas delas: Veja, Exame, O Estado de S. Paulo e a revista Piau, no Brasil; Times, os cadernos de domingo dos jornais Financial Times e The Times e a coluna diária da primeira página do Wall Street Journal, do exterior.
Guzzo também mencionou alguns jornalistas que em sua opinião escrevem bem. Entre eles: Raimundo Rodrigues Pereira, Geraldo Mayrink, Vilma Gryzinski e Isabela Boscov (as duas de Veja), Gilberto Dimenstein (Folha de S. Paulo), David Cohen, Hélio Gurovitz e Paulo Nogueira (os três de Época).
O que faz o mau jornalista?
O bom jornalismo foi amplamente abordado na palestra (suas práticas e características). Mas uma questão ainda pairava: "Quais são os motivos para um jornalista não escrever bem?" - até ser levantada pela aluna Júlia Medeiros, quase no fim do encontro. Guzzo pontuou que o "mau jornalista" é fruto dele próprio. "É fruto da preguiça, da distração, do despreparo, da falta de talento e de curiosidade". Sobre o preparo do jornalista, Guzzo fez críticas às faculdades de jornalismo, de um modo geral. Ele crê que os cursos, muitas vezes, priorizam aspectos teóricos da formação e deixam a prática de lado. Mas não se deve culpar apenas as instituições de ensino pelo aparecimento maus jornalistas ."Quem quer saber, corre atrás" , concluiu .